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O chefe

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Fazer-se ajudar

 

 

  

Arte de neutralizar as resistências

 

Pelo mesmo facto de que o chefe é obrigado, por causa da sua missão, a exigir de seus subordinados certos esforços e até certos sacrifícios, por esse mesmo facto não deve admirar-se de vir a encontrar resistência.

Tais resistências serão individuais ou colectivas, claras ou ocultas, passageiras ou persistentes. O ideal seria prevê-las; nisso se reconhece o chefe de visão. Seja como for, é preciso reduzi-las e neutralizá-las; nisso se reconhece o chefe hábil.

 

 

Muitas vezes, o que faz irritar um homem, não é tanto o esforço que se lhe pede como a maneira como se lhe pede. Ninguém gosta de receber ordens. Um "deseja fazer isto?" é muitas vezes mais eficaz do que um "faça isto", porque estimula a dignidade do subordinado e dá-lhe mais a impressão de cooperar do que de executar.

 

Há sacrifícios que se não pedem senão quando para tal está criado ambiente favorável, doutro modo corre-se o risco de encontrar uma oposição, que, brotando do instinto de conservação, poderá surgir como uma legítima defesa.

 

Em todo o ser humano, existe complexidade de sentimentos que nem sempre afloram todos à consciência esclarecida. Dirigindo-vos ao que de melhor há num homem, chamai à luz, sem que o interpelado dê por isso, os sentimentos que vão tornar-se vossos aliados.

 

Deixando transparecer que receais uma resistência, provocai-la e dais-lhe corpo.

 

Não obstante o vosso tacto e a vossa bondade, encontrareis todavia descontentes, susceptíveis que terão desvirtuado as vossas intenções e interpretado mal as vossas palavras. A estupidez humana é insondável e variada nas suas manifestações.

Não estranheis; antes de tudo, conservai a calma, não leveis nada ao trágico. Tentai compreender a causa dessa oposição surda. Muitas vezes será uma palavra mal compreendida, um gesto mal interpretado, uma decisão tida como arbitrária. A imaginação aumenta os factos, generaliza-os, e dentro em breve o subordinado toma a seus próprios olhos figura de vítima e de perseguido.

Não receeis rebentar o abcesso numa conversa sincera, com os recalcitrantes apontados, para pôr as coisas no seu lugar. Tirados os ventos, e restabelecida a confiança, restabelecer-se-á a paz.

 

 

Não aceiteis nunca discutir com um dos vossos subordinados diante de outros. A sós, no vosso gabinete, podereis fazer apelo aos argumentos ad hominem que não são convenientes, nem para vós nem para o interlocutor, perante a galeria. Tanto mais que um homem recusará sempre confessar os seus erros perante os camaradas, e, se vós tiverdes claramente razão, não vos perdoará de o terdes publicamente humilhado.

 

Quanto mais excitado está o vosso interlocutor, tanto mais necessário se torna permanecer amável e calmo. Quando tiverdes de discutir com alguém que sentis enervado, esforçai-vos por fazer-lhe perguntas que façam aflorar aos lábios um sim. Pelo próprio facto de o terdes obtido, a tensão terá abrandado.

 

Àquele que descobre obstáculos e dificuldades por toda a parte, e tem o malicioso prazer de os aumentar, recordai os êxitos por ele já obtidos. Chamareis imediatamente à vossa causa o seu amor próprio.

 

A maior parte daqueles que se acanham são simplesmente vítimas dum complexo de inferioridade contraído por vezes na infância, quando receavam, por exemplo, ser aniquilados na vida pelos mais fortes do que eles. Esta apreensão transformou-se em alguns em timidez paralisante. Noutros, provocou como reacção a atitude interior de desconfiança e de reserva, e até de protesto a priori contra todo o poder de autoridade; entregavam-se assim à ilusão - espécie de compensação - de recuperar a sua independência e de salvaguardar a sua dignidade. Pouco a pouco esta maneira de reagir tornou-se um hábito, um verdadeiro reflexo de que não têm sequer consciência.

O que importa, com tais temperamentos, é continuar bondoso, indulgente, animador, sem nada cortar às exigências legítimas. Quando lhe derdes uma ordem, não façais caso do seu mau humor ou das suas recriminações, não discutais sequer. Mas não exijais uma execução imediata, deixai que a ideia faça o seu caminho, voltai mais tarde a completar a vossa ordem sem mesmo aludir à sua resistência nem dar a sensação de ter ficado impressionado. O espírito tornar-se-á a habituar à ideia de obedecer, a resistência cairá por si mesma.

 

 

Entre os que se opõem à acção do chefe, encontram-se aqueles que poderiam apelidar-se de revoltados por temperamento de chefe. Possuindo, pela menos, algumas das qualidades características dos chefes, sofrem por se verem em situação subalterna à qual nunca se adaptaram capazmente.

Com homens assim é preciso agir às vezes com tacto e firmeza. Com tacto, porque se pressentem que vós os apreciais por seu valor e estais decididos a confiar-lhe, desde que seja possível, um lugar de chefia em conformidade com as suas aptidões reais, terão a impressão de ser reabilitados a seus próprios olhos, e a sua revolta transformar-se-ia em paz.

Com firmeza, porque convém fazer-lhes sentir, sem equívoco e sem subterfúgio possível, que, no interesse da missão que conjuntamente deveis realizar, cada um em seu lugar, vós não tolerais nunca uma autoridade mais ou menos oculta que arruinasse a vossa.

 

 

Não açuleis nunca contra vós uma colectividade. Sublinhai os denominadores comuns que ligam os subordinados ao chefe, e de modo especial a missão comum, que é o fundamento da vossa unidade.

 

Assim como o prestígio se adquire pelo valor técnico e moral, assim os corações se conquistam pela equidade, pela bondade, pela dedicação desinteressada, e mais facilmente se será bem sucedido no vencer as resistências.

 

 

Onde não se diga outra coisa, os pensamentos apresentados são citações de Gaston Courtois (L´art d´être chef)