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O chefe

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Arte de repreender

 

Um chefe que receia fazer os reparos necessários com pretexto de evitar atritos, mostra-se incapaz porque cria à sua volta uma atmosfera propícia à organização da desordem e do "deixa-correr" em todas as suas formas, e o resultado inesperado é que o chefe pusilânime que julga, por ser espírito de tolerância, atrair a si as simpatias dos seus subordinados, acabará, cedo ou tarde, por ser objecto do seu profundo desprezo.

 

Quando se torna necessária uma observação, deve fazer-se sem demora; um homem que é censurado muito tempo após o acontecimento incriminado terá tendência para pensar que, primeiramente, os seus actos foram aprovados, mas que uma influência externa ou uma má vontade a seu respeito modificaram então a opinião do chefe. (Courau)

 

Fazer notar um defeito com muita dureza revela falta de psicologia e é muitas vezes injustiça. O culpado nunca é tão responsável como parece ao seu juiz, e uma censura muito viva, ferindo o amor próprio, pode levar ao desânimo ou pelo contrário à revolta do inferior sem nenhum benefício para ninguém.

 

Uma repreensão desproporcionada à falta cometida leva a um resultado diametralmente oposto àquele que se espera. O subordinado indigna-se contra o exagero que julga imerecido, perde a confiança na justiça de seu chefe e tira daí motivo para esquecer completamente a sua parte de culpabilidade.

 

Regra geral, as faltas, com as quais o chefe mais se indigna, são aquelas em que ele próprio tem a parte maior da responsabilidade ou porque se explicou mal ou porque não soube seguir de perto a execução.

 

Quando houver de fazer-se uma censura, há que ter presente que se corre menos risco de ser injusto alegando circunstâncias atenuantes do que julgando com severidade unicamente segundo os factos verificados. A malícia propriamente dita é rara, bem como a má vontade. A negligência e a falta de atenção, sendo repreensíveis, podem no entanto, explicar-se por causa que o chefe tem o direito de investigar como tem o dever de remediar.

 

É preciso precaver-se de generalizar prematuramente uma falta cometida, atribuindo-a a um defeito congénito e irremediável, porque, mesmo que isso fosse verdade, constituiria meio infalível de aniquilar de antemão qualquer possibilidade de recuperação.

 

Nunca deve infligir-se uma repreensão séria sob o império da cólera ou de grande nervosismo; correr-se-ia o risco de, exagerando a repreensão, diminuir-lhe a importância, e o chefe desacreditar-se-ia aos olhos de seus colaboradores por falta de comedimento.

 

Quando se repreende, é preciso ter sempre em mente o fim que se pretende atingir, isto é, a educação, .a formação do súbdito; é necessário portanto pensar nas reacções que tal facto possa provocar nele e não deixar livre curso a um momento de mau humor.

 

Se estais em ocasião de dirigir a um colaborador, dominado pelo nervosismo, algumas palavras desagradáveis; ou se estais pronto a reprimir a sua iniciativa por uma ordem intempestiva; ou se alimentais alguma veleidade de caçar desastradamente as suas atribuições, colocai-vos, no lugar do vosso colaborador, observai sinceramente como seria a vossa reacção, se as SITUAÇÕES se invertessem, e evitareis sem dúvida um deslize.

 

O chefe deve ter o cuidado de não lembrar, a propósito duma falta, os erros antigos. Não existe coisa que mais possa desanimar um homem do que o pensamento de estar "classificado", de modo desfavorável e definitivo, por aquele de quem depende.

 

Não vos fiéis na ironia. Pode, em matéria de pouca importância, sublinhar com elegância certa observação; mas se se trata duma questão mais grave, a ironia toma o carácter de injustiça.

 

Tende o sentido das proporções;não façais admoestação severa por uma falta de pouca importância.

 

Não se intervenha a cada momento: as intervenções muito frequentes ou a propósito de nada acabam por gastar a autoridade.

 

Não se confunda firmeza com brutalidade. Por mais severa que seja a repreensão, pode sempre exprimir-se em termos delicados. "Fortiter in ré, suaviter in modo". Evite-se acima de tudo fazer observações em termos injuriosos; o colaborador esqueceria o fim concreto das observações para se recordar apenas da injúria.

 

Dizer rapidamente, e com vigor, o que se tem no coração é sabedoria política. Repreensão dura, mas breve, faz menos mal do que descontentamento hostil e reservado.

 

Os súbditos devem saber que, não executando as ordens, serão sacrificados, mas também que, se a execução duma ordem os leva ao desastre, estarão cobertos. O verdadeiro chefe aceita sempre a responsabilidade total dos seus actos.

 

Antes de disparatar com o chefe de serviço responsável, examinai as disposições tomadas por ele, e perguntai a vós próprios, em plena consciência, se, com os elementos de informação de que ele podia dispor, vós não teríeis cometido os mesmos erros. Neste caso, explicai-lhe os factos de maneira objectiva, analisai com ele as causas e as consequências do seu erro; mas abstende-vos de qualquer censura e pelo contrário ajudai o vosso colaborador a corrigir as suas directrizes;, se se encontra impressionado pelo seu revés, dar-lhes-eis precioso auxílio moral e ganhareis certamente a sua estima, confessando-lhe francamente que, em seu lugar, provavelmente não teríeis procedido doutra maneira. (Coureau)

 

Se, no entanto, houve erro flagrante e se o vosso colaborador se deixou surpreender por determinado acontecimento que deveria prever, ele será disso, regra geral, suficientemente consciente para que seja útil incomodar-vos; notai apenas que a falta não passou despercebida e confiai na boa fé e no bom senso do culpado para reparar o seu erro e repará-lo. Insistindo desabridamente, incitá-lo-íeis a procurar argumentos especiosos para sua defesa; acabaria por se prender aos seus próprios argumentos, e, sob o domínio duma revolta surda contra a vossa falta de tacto, persuadir-se-ia finalmente de que a sua falta é completamente desculpável. (Coureau)

 

Mas se recai em erro já cometido, em que se transgrediram conscientemente as vossas ordens precisas, que nenhuma espécie de consideração vos impeça de lhe infligir a reprimenda que merece; por muito amargo que seja o medicamento, é necessário ministrá-lo sem hesitação. Ponde nisso, todavia, certa medida, dado que os medicamentos mais eficazes são nocivos quando tomados em grande dose. (Coureau)

 

O chefe que não admite a falta em seus súbditos nunca conseguirá nada, pelo contrário deve sentir-se i responsável pela sua formação. Um industrial gostava de dizer que cada vez que tinha de dar uma repreensão a qualquer dos seus subordinados ficava com a impressão de que era ele próprio o faltoso, porque de duas uma: ou tinha exigido demasiado, ou não tinha preparado, dirigido ou vigiado suficientemente o seu subordinado.

 

Ao censurar, torna-se indispensável estabelecer diferença entre os factos materialmente verificáveis e os factos de interpretação; podeis dizer a um colaborador que ele trabalha insuficientemente (facto de verificação), mas feri-lo-íeis mortalmente, e aliás não vos acreditaria, se lhe dissésseis, que não é inteligente (facto de interpretação. (Coureau)

 

Infelizmente, a educação, para muitas pessoas, consiste em aproveitar as faltas cometidas para as colocar uma vez e outra debaixo dos olhos do culpado até conseguir que, perante a sua própria consciência, se considere apenas delinquente e perca toda a espécie de impulso generoso para progredir no caminho da perfeição. (Foerster)

 

Não convém deixar por muito tempo um súbdito sob a impressão dolorosa duma censura ainda que merecida, porque toda a repreensão determina um complexo de inferioridade que busca encontrar compensação numa atitude interior de desconfiança ou de oposição, quando não leva ao desânimo ou ao desprezo.

 

 

 

 

Onde não se diga outra coisa, os pensamentos apresentados são citações de Gaston Courtois (L´art d´être chef)