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Calma e domínio de si
Para conservar a calma, é necessário possuir o hábito de não dramatizar nada e de, na expressão de Foch, "não levar ao trágico as coisas simples, nem simplificar as coisas trágicas".
O chefe que quer ser digno de comandar deve começar por ser capaz de comandar-se a si próprio. Sem o domínio de si, ninguém pode pretender o domínio das coisas e ainda menos o dos homens.
De toda a pessoa do chefe deve desprender-se uma impressão de serenidade que dê aos que o cercam um sentimento de segurança.
O menor sinal de inquietação, de depressão, afortiori de nervosismo, que não teria consequências graves para quem vivesse isolado, pode ter repercussões irreparáveis no grupo que se dirige.
O chefe não sabe o que é medo, ou, se sabe, toda a gente deve ignorá-lo. Deve dar a impressão de que será, na expressão forte de La Varende, sempre, e por toda a parte, superior aos acontecimentos. Reflexos anulados, natureza dominada, paladino da coragem se preciso, aceita todos os riscos, contanto que seu aparente sangue frio tranquilize os seus e lhes evite o pânico, que é na guerra o pior dos riscos.
Instintivamente, na hora de perigo, fita-se a cara do chefe: se nele se surpreende enervamento ou angústia, tal impressão reflecte-se na colectividade, com um coeficiente tanto mais forte quanto mais amado é o chefe e se julga poder contar com ele.
Um dos generais de Verdum, que no seu posto, esperava do comando as notícias de ataque e não podia saber senão o que lhe dizia, fraccionadamente, o telefone, nota: "a inquietação devora-me, a angústia tortura-me, e no entanto, se desejo manter o meu prestígio, irradiar confiança, tenho de mostrar aos olhos inquietos que furtivamente me interrogam uma máscara impassível. O meu gesto deve continuar sóbrio, a minha voz firme, o meu pensar lúcido. Não conheço prova mais dura, e também mais decisiva, para a vontade do chefe". (General Passaga, citado por Féricard em Verdum)
A calma dá imediatamente a impressão duma vontade que sabe o que quer e que não se deixará desviar do seu intento. Um olhar calmo e tranquilo basta muitas vezes para inspirar uma espécie de insegurança aos insubmissos: sentem então por instinto que não terão a última palavra.
Todos aqueles que foram à guerra se lembram de, como nos momentos difíceis, a tropa fixa no oficial que a comanda o seu olhar inquieto; a calma ou o disfarce prazenteiro dum jovem cabo não seria, nesse caso, causa de maior confiança do que os berros histéricos dum velho sargento?
Para manter a calma, o chefe deve saber poupar-se. Um chefe fatigado, estafado, gasto não saberá nunca dominar uma situação difícil. É uma arte conhecer os seus limites, não devendo, desde início, atirar-se à acção com toda a energia, a ponto de estar estoirado no momento em que seria necessário um resto de vigor.
A saúde e a capacidade de trabalho estão na primeira fila das condições requeridas para se ser chefe. A vastidão da tarefa é menos exigente ainda do que a continuidade do esforço, e enquanto que a enfermidade permite ao sábio as investigações e ao artista as criações, aniquila no chefe a acção.
Repousar é para o chefe uma arte, arte indispensável, e o chefe que a descure por sua culpa fica exposto, mais hoje mais amanhã, a perder o equilíbrio dos seus movimentos. Gengis Khan dizia que o chefe infatigável não serve para comandar.
Todos os condutores de homens sentem necessidade de isolar-se para meditar com calma e reservam tempo para elaborar a sua acção próxima ou remota. A isto chamava Galliéni "o seu banho cerebral".
O chefe, à força de dar, esvazia-se rapidamente, se não cuidar do seu apetrechamento intelectual e espiritual. Deve dividir bem o seu tempo, de maneira a reservar para si quotidianamente uma ou duas horas de meditação e de leitura. Com regularidade, deve ter reuniões com seus camaradas, pelas quais não só a amizade e a experiência aumentam, mas também permitem pôr em comum inquéritos e reflexões. Principalmente, é preciso preservar e cultivar em si próprio a faculdade de criar: imaginar continuamente iniciativas novas, novas experiências; fazer balanço do conhecimento dos seus rapazes, experimentar a respeito deles hipóteses novas, que, em seguida, os factos virão desfazer ou confirmar; manter a confiança na riqueza humana que poderia muito bem fornecer-lhe a descoberta dos seus rapazes. (Michel Herr, revista Esprit, de Maio 1941)
Como tenho sempre mais coisas para fazer de que tempo para as executar, e como esta visão me preocupa e seduz, eu não pensarei mais nas coisas que tenho de fazer, senão no tempo que devo empregar nisso. Empregá-lo-ei sem nada perder, começando pelas coisas mais importantes, e com aquelas que não puderem ser feitas não me inquietarei. (Dupanloup)
O chefe evita as palavras inúteis; sabe ser discreto, não comunica os seus projectos nem os seus estados de alma. Richelieu afirmava que o segredo é a alma dos negócios, e que é preciso escutar muito e falar pouco para actuar eficazmente.
O silêncio do chefe, sinal de vontade forte e de intensa reflexão, inspira respeito. A verborreia e a tagarelice fazem baixar o prestígio muitas vezes, a confiança sempre.
Para permanecer calmo, é preciso que o chefe não se deixe nunca absorver, nem pelas ocupações, nem pelos acontecimentos, nem mesmo pelos homens, e poderia acrescentar-se: nem mesmo por si próprio.
Um homem de acção não perde tempo a deplorar o que contrariou a sua acção; aceita-o como uma nova fase do problema que tem de resolver. (Grasset)
Nunca se diga "estou gasto", porque ao fim de certo tempo isso tornar-se-á em nós numa espécie de obsessão e necessidade de afirmá-lo sem cessar; acabar-se-á por acreditá-lo, o que constituirá porta aberta para todas as impaciências e para a fadiga nervosa.
O que fatiga e o que enerva não é tanto o que se faz como o que não chega a fazer-se - eis o motivo por que é necessário que um chefe saiba organizar a sua vida. Há que ter o sentido da hierarquia dos valores, estabelecer uma ordem de urgências para as suas actividades, e proporcionar à importância de cada esforço o tempo que deve ser-lhe reservado.
"A paciência é uma garantia da ordem", diz o educador americano Hughes. Perder o domínio de si próprio, acrescenta com razão, é sempre a maneira mais propícia a perder a sua autoridade sobre outrem. Um aspecto tranquilo, com origem não num temperamento fleumático mas numa disciplina pessoal, exerce nas pessoas nervosas sem domínio uma influência sugestionável à qual não podem escapar.
Um poeta da índia antiga disse: "domina-te a ti próprio para dominar os outros. Como, senão por uma força pessoal, poderias levá-los a querer o que tu queres ?"
Um chefe irritado ou excitável deixa de cumprir a mais essencial das suas funções, que é a de incarnar a autoridade e a ordem verdadeiras; ele próprio não passa duma amostra da dissipação, da inquietude, da falta de domínio que deseja combater nos outros. E, desde então, qualquer que seja o zelo manifestado, nenhum espírito de ordem lograria emanar dele. (Foerster)
Vós ides reinar sobre a cabeça de vossos homens: não é momento propício para perder a vossa.
Se surgem obstáculos imprevistos, o chefe é a única pessoa que não tem o direito de se emocionar. Quando todos estiverem desanimados, ser-lhe-á necessário couraçar-se ainda para dar coragem aos outros, mesmo que a não possua já para si.
São os seguintes os conselhos que, em caso de crise, dava certo patrão com experiência de negócios: "Não digais aos vossos colaboradores: isto não é nada, sois uns cobardes; além disso, não exagereis em sentido inverso, gritando-lhes: está tudo perdido, salve-se quem puder; de preferência, dizei-lhe: a situação é muito grave e necessita de toda a vossa energia; mas não percais a calma e confiai na minha firmeza como eu confio na vossa dedicação". (Courau, Le patron et son equipe)
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Onde não se diga outra coisa, os pensamentos apresentados são citações de Gaston Courtois (L´art d´être chef)
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