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O chefe

O que faz o chefe

Decisão e iniciativa

Calma e domínio de si

Previdência

Bondade de coração

Firmeza

Formar e educar

"Controlar"

Neutralizar resistências

Trabalhar em grupo

Necessidade de chefes

Fé na sua missão

Disciplina

Sentido da realidade

Conhecer os homens

Respeito pelo homem

Exemplo

Organizar

Repreender

Animar e recompensar

O segredo do chefe

Missão: servir

Autoridade

Energia realizadora

Competência

Benevolência

Justiça

Humildade

Dirigir

Punir

Fazer-se ajudar

 

 

  

Calma e domínio de si

 

Para conservar a calma, é necessário possuir o hábito de não dramatizar nada e de, na expressão de Foch, "não levar ao trágico as coisas simples, nem simplificar as coisas trágicas".

 

O chefe que quer ser digno de comandar deve começar por ser capaz de comandar-se a si próprio. Sem o domínio de si, ninguém pode pretender o domínio das coisas e ainda menos o dos homens.

 

De toda a pessoa do chefe deve desprender-se uma impressão de serenidade que dê aos que o cercam um sentimento de segurança.

 

O menor sinal de inquietação, de depressão, afortiori de nervosismo, que não teria consequências graves para quem vivesse isolado, pode ter repercussões irreparáveis no grupo que se dirige.

 

O chefe não sabe o que é medo, ou, se sabe, toda a gente deve ignorá-lo. Deve dar a impressão de que será, na expressão forte de La Varende, sempre, e por toda a parte, superior aos acontecimentos. Reflexos anulados, natureza dominada, paladino da coragem se preciso, aceita todos os riscos, contanto que seu aparente sangue frio tranquilize os seus e lhes evite o pânico, que é na guerra o pior dos riscos.

 

Instintivamente, na hora de perigo, fita-se a cara do chefe: se nele se surpreende enervamento ou angústia, tal impressão reflecte-se na colectividade, com um coeficiente tanto mais forte quanto mais amado é o chefe e se julga poder contar com ele.

 

Um dos generais de Verdum, que no seu posto, esperava do comando as notícias de ataque e não podia saber senão o que lhe dizia, fraccionadamente, o telefone, nota: "a inquietação devora-me, a angústia tortura-me, e no entanto, se desejo manter o meu prestígio, irradiar confiança, tenho de mostrar aos olhos inquietos que furtivamente me interrogam uma máscara impassível. O meu gesto deve continuar sóbrio, a minha voz firme, o meu pensar lúcido. Não conheço prova mais dura, e também mais decisiva, para a vontade do chefe". (General Passaga, citado por Féricard em Verdum)

 

A calma dá imediatamente a impressão duma vontade que sabe o que quer e que não se deixará desviar do seu intento. Um olhar calmo e tranquilo basta muitas vezes para inspirar uma espécie de insegurança aos insubmissos: sentem então por instinto que não terão a última palavra.

 

Todos aqueles que foram à guerra se lembram de, como nos momentos difíceis, a tropa fixa no oficial que a comanda o seu olhar inquieto; a calma ou o disfarce prazenteiro dum jovem cabo não seria, nesse caso, causa de maior confiança do que os berros histéricos dum velho sargento?

 

Para manter a calma, o chefe deve saber poupar-se. Um chefe fatigado, estafado, gasto não saberá nunca dominar uma situação difícil. É uma arte conhecer os seus limites, não devendo, desde início, atirar-se à acção com toda a energia, a ponto de estar estoirado no momento em que seria necessário um resto de vigor.

 

A saúde e a capacidade de trabalho estão na primeira fila das condições requeridas para se ser chefe. A vastidão da tarefa é menos exigente ainda do que a continuidade do esforço, e enquanto que a enfermidade permite ao sábio as investigações e ao artista as criações, aniquila no chefe a acção.

 

Repousar é para o chefe uma arte, arte indispensável, e o chefe que a descure por sua culpa fica exposto, mais hoje mais amanhã, a perder o equilíbrio dos seus movimentos. Gengis Khan dizia que o chefe infatigável não serve para comandar.

 

Todos os condutores de homens sentem necessidade de isolar-se para meditar com calma e reservam tempo para elaborar a sua acção próxima ou remota. A isto chamava Galliéni "o seu banho cerebral".

 

O chefe, à força de dar, esvazia-se rapidamente, se não cuidar do seu apetrechamento intelectual e espiritual. Deve dividir bem o seu tempo, de maneira a reservar para si quotidianamente uma ou duas horas de meditação e de leitura. Com regularidade, deve ter reuniões com seus camaradas, pelas quais não só a amizade e a experiência aumentam, mas também permitem pôr em comum inquéritos e reflexões. Principalmente, é preciso preservar e cultivar em si próprio a faculdade de criar: imaginar continuamente iniciativas novas, novas experiências; fazer balanço do conhecimento dos seus rapazes, experimentar a respeito deles hipóteses novas, que, em seguida, os factos virão desfazer ou confirmar; manter a confiança na riqueza humana que poderia muito bem fornecer-lhe a descoberta dos seus rapazes. (Michel Herr, revista Esprit, de Maio 1941)

 

Como tenho sempre mais coisas para fazer de que tempo para as executar, e como esta visão me preocupa e seduz, eu não pensarei mais nas coisas que tenho de fazer, senão no tempo que devo empregar nisso. Empregá-lo-ei sem nada perder, começando pelas coisas mais importantes, e com aquelas que não puderem ser feitas não me inquietarei. (Dupanloup)

 

O chefe evita as palavras inúteis; sabe ser discreto, não comunica os seus projectos nem os seus estados de alma. Richelieu afirmava que o segredo é a alma dos negócios, e que é preciso escutar muito e falar pouco para actuar eficazmente.

 

O silêncio do chefe, sinal de vontade forte e de intensa reflexão, inspira respeito. A verborreia e a tagarelice fazem baixar o prestígio muitas vezes, a confiança sempre.

 

Para permanecer calmo, é preciso que o chefe não se deixe nunca absorver, nem pelas ocupações, nem pelos acontecimentos, nem mesmo pelos homens, e poderia acrescentar-se: nem mesmo por si próprio.

 

Um homem de acção não perde tempo a deplorar o que contrariou a sua acção; aceita-o como uma nova fase do problema que tem de resolver. (Grasset)

 

Nunca se diga "estou gasto", porque ao fim de certo tempo isso tornar-se-á em nós numa espécie de obsessão e necessidade de afirmá-lo sem cessar; acabar-se-á por acreditá-lo, o que constituirá porta aberta para todas as impaciências e para a fadiga nervosa.

 

O que fatiga e o que enerva não é tanto o que se faz como o que não chega a fazer-se - eis o motivo por que é necessário que um chefe saiba organizar a sua vida. Há que ter o sentido da hierarquia dos valores, estabelecer uma ordem de urgências para as suas actividades, e proporcionar à importância de cada esforço o tempo que deve ser-lhe reservado.

 

"A paciência é uma garantia da ordem", diz o educador americano Hughes. Perder o domínio de si próprio, acrescenta com razão, é sempre a maneira mais propícia a perder a sua autoridade sobre outrem. Um aspecto tranquilo, com origem não num temperamento fleumático mas numa disciplina pessoal, exerce nas pessoas nervosas sem domínio uma influência sugestionável à qual não podem escapar.

 

Um poeta da índia antiga disse: "domina-te a ti próprio para dominar os outros. Como, senão por uma força pessoal, poderias levá-los a querer o que tu queres ?"

 

Um chefe irritado ou excitável deixa de cumprir a mais essencial das suas funções, que é a de incarnar a autoridade e a ordem verdadeiras; ele próprio não passa duma amostra da dissipação, da inquietude, da falta de domínio que deseja combater nos outros. E, desde então, qualquer que seja o zelo manifestado, nenhum espírito de ordem lograria emanar dele. (Foerster)

 

Vós ides reinar sobre a cabeça de vossos homens: não é momento propício para perder a vossa.

 

Se surgem obstáculos imprevistos, o chefe é a única pessoa que não tem o direito de se emocionar. Quando todos estiverem desanimados, ser-lhe-á necessário couraçar-se ainda para dar coragem aos outros, mesmo que a não possua já para si.

 

São os seguintes os conselhos que, em caso de crise, dava certo patrão com experiência de negócios: "Não digais aos vossos colaboradores: isto não é nada, sois uns cobardes; além disso, não exagereis em sentido inverso, gritando-lhes: está tudo perdido, salve-se quem puder; de preferência, dizei-lhe: a situação é muito grave e necessita de toda a vossa energia; mas não percais a calma e confiai na minha firmeza como eu confio na vossa dedicação". (Courau, Le patron et son equipe)

 

Onde não se diga outra coisa, os pensamentos apresentados são citações de Gaston Courtois (L´art d´être chef)